• Luiz Aquila

Vai passar, vai ficar.

(a evolução da liberdade e a persistência da memória)

As ruas pertenciam à ordem estabelecida: cavalos e carros blindados garantiam o rumo certo de um país que vai pra frente. A lei assegurava a certeza do pão e do sol de todas as manhãs e as pessoas seguiam o seu caminho traçado, alheias e distantes. O sonho, realmente, tinha acabado, e a ideologia pop rendia-se à máxima que bradava ser a arte um “negócio como outro qualquer”. Com razão, vendia-se bem, vendia-se quase tudo, pastas dentais, sorrisos de Marylin. O cotidiano, porém, impunha a sua inevitável tragédia, ausência de dor e de afeto, território da desesperança. Os beijos insinuavam, por trás do gosto de hortelã, o grito de pavor sufocado pela garganta. A inteligência, condenada, não morre; ela se esconde e resiste nas conversas susurradas dos pequenos grupos, nos bares, nos corredores das universidades, na Índia, no sul do Pará, nas entrelinhas dos jornais, nos becos, nos muros, na noite. A arte mergulha no hermetismo conceitual como estratégia de sobrevivência e o artista abre-se a toda e qualquer experiência, protege e garante o pensamento, ele insiste. A morte da arte passa a ser o slogan e a pintura é acusada de ser o meio menos apropriado para se dizer alguma coisa. Atestado de óbito nas mãos, o defunto finge-se de morto e sorri. Algumas pessoas se reúnem, feito guerrilheiros, entre as tintas, as telas e os pincéis, diante da tradição e dispostas ao novo. O clima é hostil, mas o artista, pintor, sorri. Ele sabe. Vai passar.

Pintar significa resgatar a tradição visando à transformação. É um ato de coragem, colocar-se no meio da arena e fazer de seu corpo o instrumento de sua ação e o limite de sua interferência. A tragédia da arte é o seu prazer. Essa é a sua nova estratégia, a sua redescoberta. Da mesma maneira em que a arte moderna libertou-se do ilusório, da representação, da profundidade espacial, o artista recusa, também, a noção de profundidade temporal. Cézanne não morreu. O artista contemporâneo recusa o mito da contemporaneidade. A história da arte são os leões da arena e com eles o pintor trava o seu eterno embate, corpo-a-corpo, fazendo dessa luta interminável a dança, o drama, o seu local específico de atuação. De nada adianta alimentar as cansativas teorias que, há décadas, insistem em decretar a morte da poesia, do teatro, da pintura: elas falharam. A realidade é a sua condenação, pois jamais os artistas deixaram de escrever seus poemas, de representar, de pintar. Essa ânsia de “começar de novo, começar do zero” esbarra na evidência da estrutura científica humana. A originalidade absoluta, a gritaria falsamente libertária do “eu não devo nada a ninguém” cai por terra diante da genética. E o sensível sobrevive pelo acúmulo das experiências, elos de uma mesma corrente. Pintar é processo, velar e revelar, sangrar o espaço e retalhar (e recompor) a história. Um quadro não tem começo ou fim. A dúvida é o insumo e a mola dessa indústria. O tempo não é inimigo. O artista, pintor, sorri. Ele sabe. Vai ficar.

Vai passar. Importante é registrar o destaque que as artes plásticas adquiriram no contexto cultural nesta década 80. Catalogar essa produção através de situações geográficas ou etárias não justifica o fato. Sabe-se que, hoje, não existem mais movimentos organizados; ao contrário, palavras-de-ordem são imposições autoritárias que o espírito libertário da arte condena. O interesse pela pintura faz parte de um processo histórico que reintroduz a importância da fatura, reação provocada pela excessiva produção filosófica da arte conceitual, cuja qualidade era analisada pelo valor da idéia. Essa reação, entretanto, rejeita compromissos de vertentes ou grupo. Cada qual mexe e tempera o seu caldo de acordo com as suas experiências e as suas interrogações. A amplitude da noção de contemporaneidade rejeita as justificativas temporais: é outro o calendário da arte. “Apoiar alguém, agindo ou pensando igual por haver nascido na mesma década ou na próxima, representa menos do que fazer-se membro da Liga das Cabeças Ruivas”. Luiz Aquila insere-se, entre nós, como um dos mais belos exemplos de resgate da história da pintura e de busca dos seus próprios referenciais, desmistificando o autoritarismo excessivo imposto pelo reino do conceito e reaproximando a arte de seu cotidiano histórico e sensível. Ele elimina as supostas barreiras entre o gesto e a construção, entre a emoção e a racionalidade, entre a ordem e o caos. O espaço de Aquila opta pela adição e se revela, pois, inteiro e fragmentado. "Para criar realidade, um poeta deve antes ter força para matá-la. Mas, instantaneamente, os fragmentos unem-se outra vez, apaixonados um pelo outro, procurando um ao outro, reunindo-se com desejo, com o pressentimento obscuro da nova vida à qual estão destinados." E é o próprio Aquila quem afirma em depoimento a esta revista: "... a alegria e a coragem de viver e de fazer arte estão de volta. Tudo isso é muita pintura, cor, pele, emoção. E a maior desgraça é não pintar." Essa desgraça a qual Aquila se refere é a recusa da tradição. Essa corrente da tradição é a arma e o exercício da liberdade, ela não se faz cárcere, ela é estrada. Sem ela não haverá trabalho, nem esperança, nem futuro. Não haverá razão. E o artista, pintor, sabe que a sua intenção é a voz, é a dança de evolução da liberdade.

Vai ficar. A paisagem de Aquila é, pois, drama e comédia, construção e caos, a sua pintura é a história da pintura, o Todo fragmentado. Estilhaços. "Os pintores precisam pintar para seu próprio enaltecimento e prazer, e aquilo que têm a dizer, e não o que são forçados a sentir, é o que interessará àqueles que estiverem interessados neles. O pensamento do momento é a emoção do momento." Se as suas áreas geometrizantes e suas áreas manchadas provocam a tensão direta, no espaço da obra, acentuadas pelas incisões que retalham (estilhaçam) esse espaço, o tempo atua como um outro elemento, reforçador dessa atitude comportamental. É esse tempo, esse processo, que justifica e explica a dedicação romântica e afetiva com a natureza, ponto de partida, suas cores, seu movimento, seu caos, sobre o qual Luiz Aquila compõe, separa, transforma e clarifica. O artista, portanto, atua como elemento vivo da paisagem, ator e personagem da cena, ao mesmo tempo em que se situa como repórter da visualidade. O pensamento e a ação ocorrem simultaneamente. A estruturação da forma é compreendida pelo processo da adição: as cores são os fatores dessa operação. Logo, o fascínio pela incidência da luz sobre as coisas amplia-se numa luminosidade nas e através das coisas; a sede impressionista é resgatada e retalhada pelo espaço cubista, a matéria se acumula como a pele e as roupas revestem o corpo: o tempo as disseca, abre o seu retrato, o seu real, revela, através da cor, a sua identidade total, atravessa. A obra é a metáfora do corpo: a sua cabeça, sua carne, suas veias, suas vísceras, seu sangue e seus ossos manifestam seus desejos, suas funções: o tempo organiza essas prioridades. Se a cor fragmenta, a forma une. O olhar capta o drama, a tensão é evidente, unir e desunir, velar e revelar.

A pintura de Luiz Aquila despreza a contemplação passiva, ela pulsa, organismo estático e vivo. O defunto respira: o tempo e o espaço impõem o enigma. Diante dela o olhar pode afirmar-se tratar de paisagem distante, campos de cor feito mapas, feito pastagens. Entretanto o olhar se perturba e sugere, por outro lado, a imagem de minúsculos cristais estilhaçados, vistos pelas lentes do microscópio. A luz, o sol das paisagens, é também a luz do laboratório, instrumento natural e instrumento criado pelo homem. Em verdade, a obra assegura o fato de que a luz reluz sobre todas as coisas e a função do artista é romper as barreiras impostas pelos limites do corpo, do braço, das mãos, do sangue que circula pelas suas artérias e veias como a tinta escorre dos pincéis para a tela. Nada se perde, nada se destrói. Acumula-se. A pintura o seu peso, suas vontades, suas mazelas, seu beijo e seu escarro, seu desejo frustrado, seu orgasmo, sua evidência de ser presente no mundo. Sem maiores explicações a dar. Ela é a sua própria história. E o artista, Aquila, pintor, sabe que o seu gesto é a voz, é a dança da persistência da memória.

Texto de Marcus de Lontra Costa publicado na Revista Módulo, edição 87, setembro de 1985

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