Lelia Coelho frota

Galeria Luiza Strina



A pintura de Luiz Aquila Rocha Miranda vem-se desenvolvendo há quase uma década — com profunda coerência — através do motivo central da natureza. Por motivo entenda-se aqui uma identificação profunda com a razão deflagradora do ato de pintar, e não a escolha de tema deleitável, sobre o qual o artista intencionalmente discorra, em nome de ideal beleza, com os argumentos da forma e da cor.

Já tive ocasião de fazer referência, em 77, à configuração de uma paisagem americana na pintura de Aquila, apontando para o fato de que, ao contrário do rigor postulado pelo formalismo construtivista europeu, nela o quadrado e o retângulo se naturalizavam, ao invés de geometrizarem os elementos naturais.

Reparei, na mesma época, para a validade, em seu trabalho, do surgimento da imaginação criadora do indivíduo, aquecida por uma vontade de celebração do mundo dado, trazendo, não obstante, indicadores da crise filosófica e social que crispa a civilização ocidental.

Assim, da mesma forma que duvidamos da "utilidade" dos objetos que a indústria nos propõe, é hora de ficarmos mais abertos à idéia de que o "belo" não será forçosamente inútil ou para sempre proibido por uma absolutista estética da destruição. Já que nos recusamos ao nivelamento da massificação, por que não haveremos de aceitar as várias linguagens da arte, sempre que emergentes da verdade de uma experiência profunda? A valorização das fontes mais líricas do imaginário está tão presente na pintura de Aquila como em toda a antiquíssima arte geométrica e simbólica que o nosso século passou a chamar de abstrata e é na realidade tão concreta, constituindo hoje o lugar onde o hipersubjetivo se torna tangível.

Nos dois últimos anos, a representação interior da paisagem — ou do que chamo — paisagem — em Aquila passou por sensíveis transformações. A moldura pintada sobre o retângulo da tabela desaparece. O suporte recebe a travessia da cor transformado agora em hífen, canal que viabiliza a passagem da paisagem: não mais o quadro que abria magicamente para a recuperação de uma natureza emblemática.

A cor é agora rio, travessia que flui, de maneira a um tempo livre e organizada, de e para os pontos extra-tela onde a batizam o imaginário do artista.

A cor é cada vez mais um valor que, interando-se .com outros a partir de um primeiro acorde, cria o estado de receptividade que nos permitirá participar gradualmente do ritmo que vai construindo, mancha a mancha.

Vemos agora massas de cor pura — vermelhos, azuis, amarelo, laranja — que plasmam postpainterly, em sequência, a diferenciação qualitativa dos tons.

Nesta geografia navegável pela cor, quando o geometrismo mais aparente se atenua, persiste a organização através da mancha. A irrupção orientada da cor nestas telas de 81-82 revela o mesmo compromisso básico entre a ordenação e o espontâneo das paisagens limenhas de 77 e daquelas mais geltalticamente tropicalistas de 76. Agora, no entanto, há uma sensível ênfase sobre o gesto livre, e a nova paisagem corre fluvialmente pela tela, quando não se espasma e nu-oleia em um grande delta, esbarrando e às vezes escorrendo mesmo para fora dos seus limites.

Esse mapa mundi itinerante, stream of consciousness do artista, nos aparece em 82 mais próximo, mais pulsante — face ao lirismo mais tonal e contido na década de 70. Mas permanece nele a vista aérea, tomada de um vôo que amorosamente procura reclamar e recuperar a terra dos homens, nela inscrevendo fios/rios de cor que às vezes se transformam em escrita, único elemento "culto" desse naturalismo de istmos, continentes e províncias do vermelho, do branco, do azul e do amarelo.


Lélia Coelho Frota