Enquanto - Casa Roberto Marinho



Conversas LUIZ AQUILA e ROBERTO MAGALHÃES e Lauro Cavalcanti:


Lauro Cavalcanti: Boa tarde,

Roberto: . Boa tarde,

Aquila. Obrigado por toparem conversar de casa, da Casa e para as pessoas. É um jeito de nós continuarmos conversando.

Roberto: Magalhães : Boa tarde. Claro! Continuamos a vida.

Lauro: Exato. A primeira pergunta é inevitável: como vocês estão passando esses dias? Roberto: começa, talvez?

Roberto: Estou ótimo, porque aqui é um lugar muito lindo, amplo e isolado. Daqui de cima — estou a mil e trezentos metros de altura — só se vê montanha, mais nada. Não tem uma casa que você possa ver, ninguém.

Lauro: Roberto , você tem trabalhado?

Roberto: Tenho, todo dia. Vou dessa casa para o ateliê e fico lá na parte da manhã e da tarde, produzindo normalmente. Estou aqui há mais de um mês. Aqui, depois de três dias, você muda, passa a viver uma outra realidade e se esquece dos problemas do Rio de Janeiro. Aqui é fogão a lenha. Água de serpentina de fogão a lenha, água quente. É outro mundo.

Lauro: Claro! Você está desenhando ou fazendo pintura?

Roberto: As duas coisas. Mas tenho feito desenhos em formatos maiores, de 70 centímetros, mais ou menos. E a guache. Desenhos coloridos abstratos. Estou fazendo uma série aqui. E estou, também, terminando quadros que estavam aqui, abandonados. Quadros antigos, que estou retomando e completando. Todo dia vou para lá e trabalho.

Lauro: Que legal! E, quando acabar a quarentena, a próxima exposição que vamos fazer tem uma sala só sua.

Roberto: Estou torcendo para que a quarentena acabe logo.

Lauro: Aquila, como tem sido seu dia a dia aí?

Luiz Aquila: Olha, é muito estranho, porque eu estou em um lugar diferente do Roberto , num velho condomínio aqui em Petrópolis, espaçoso, muito fantasioso, é uma arquitetura que parece um cenário de uma opereta. No centro tem um jardim, e Vânia e eu damos umas rodadas nesse jardim, feito um carrossel. Estou me sentindo muito diferente, não estou conseguindo criar uma rotina como tinha antes. Tenho desenhado muito, mas de rompantes. Eu me sento na mesa e faço cinco, seis desenhos, em geral pastéis, com colagem, mas, ao mesmo tempo, tem um clima no ar. Quer dizer, eu acho que o Roberto está numa situação tão isolada que consegue ter um clima específico. Aqui é um oásis no meio da cidade – no Parque Ipiranga, onde eu moro. Não estou nem bem fora da cidade nem dentro, mas estou me sentindo bem. Estou virando urso. Essa sensação “úrsica” não chega a ser má de todo, mas é um estado de espírito muito diferente do normal. Como a solicitação externa é pequena, trabalho em um outro ritmo e estou com um certo prazer na preguiça. Até raspei a barba, porque achei que ia virar urso mesmo se eu a deixasse. Então, a situação é essa. Eu desenho. Ultimamente nem tenho lido tanto, tenho visto algumas séries. Tenho aproveitado a companhia da Vânia para não fazer nada, às vezes, porque é muito bom não fazer nada a dois. Acho esplêndido! Nunca tinha experimentado isso. Então, eu estou bem. Um pouco assombrado por tudo, tanto pela situação política como pela situação sanitária.

Lauro: Que se confundem, até.

Aquila: Se confundem. Isso que é uma tristeza enorme! O vírus, pelo menos, tem a desculpa de não pensar. E a situação política pensa mal.

Lauro: É. Roberto , você falou que está fazendo trabalhos abstratos. Você sempre variou.

Roberto: Sempre. Não tenho uma direção única. E, como você sabe, uso técnicas muito diferentes. Tem essas visões, vamos dizer assim, de formas abstratas, que procuro reproduzir. E, às vezes, figuras ou manuscritos, entende? Aquilo que me vem na mente eu procuro expressar. Não sigo nenhuma linha, nada. Sigo a minha mente.

Lauro: Antes de estarem em frente a uma tela em branco ou a uma folha de papel, vocês já têm um plano ou as coisas vão se dando no processo?

Roberto: Às vezes, tenho plano; às vezes, tem uma... vamos chamar de uma visão, que não é uma visão física, mas uma imaginação de formas que procuro reproduzir. Agora o Aquila, se me permite, tem uma pintura gestual. As tintas escorregam na tela com uma facilidade muito grande. Então, temos temperamentos diferentes.

Aquila: Muito. Apesar de eu ser um velho admirador do seu trabalho. No meu caso, quando me deparo com a tela em branco, é um problema, porque ela é a coisa mais perfeita que existe. Não existe nada tão belo. E cada vez que você acrescenta alguma coisa, cria um problema. Você cria um drama naquela tela em branco, que é uma situação tão harmônica. Então, uma pince - lada é um drama. Você começa a lidar com esse drama e essa política, porque existe uma política da forma que invade a tela, essas novas pinceladas e essa tela em branco, que era um espaço tão bem resolvido. Então, na minha pintura, eu fico trabalhando a tela. A tela é um assunto, o formato e a dimensão são outro assunto e a convivência de vários elementos desse espaço é outro. A minha pintura se dá no processo, no fazer e, em geral, quando parto para a tela, tenho uma vaga ideia, uma sugestão. Não chega a ser um projeto, nem uma visão. No caso do papel, o que tenho feito ultimamente é completamente diferente, por - que você tem uma dimensão pequena, muito próxima, com um controle muito maior, porque não é como o Roberto disse. A tela fica na vertical, a tinta escorrer é uma parceria que a força da gravidade cria com você. Então, você tem que lutar até com a força da gravidade.

Roberto: Mas eu falei da facilidade que você tem em espalhar as cores numa tela de uma maneira harmoniosa. Não o escorrer no sentido...

Aquila: Mas a tinta escorre e você lida com isso, com a gravidade. E a harmonia é essa grande batalha que se dá na tela. Às vezes, um quadro meu me lembra antigas batalhas do Renas - cimento, onde você tem soldados entrando de um lado, setas do outro, no fundo você tem fumaça de um incêndio. A minha pintura me lembra isso. Já o desenho, não, porque é muito próximo. Ele fica na horizontal. Tenho trabalhado muito com pastel. Até a maneira que a aspereza do papel segura o pastel é uma coisa muito mais íntima, mais próxima à escrita do que à pintura.

Roberto: Claro! É mais contido.

Aquila: Mais contido. Já que a gente está conversando, desde que eu conheço seu trabalho, Roberto , gosto muito — você é um artista que começou já muito determinado e maduro, num sentido, mesmo quando muito jovem — daquelas xilogravuras em que você nega a madeira, que você faz quase como se fosse um borrão, e, a partir de borrões, vai construindo a figura. Tem a dificuldade toda de articular do veio, construir formas na xilogravura. Você nega tudo isso, as farpas, e faz uma coisa tão macia, acho do barulho, e me lembro disso desde a época que vi, faz tempo, aquela coisa me perturba até hoje.

Roberto: Cinquenta anos!

Aquila: É. Me lembro tão bem disso.

Roberto: É, a xilogravura é tão diferente de uma superfície de papel ou de tela, que é um outro tipo de leitura da forma. Então, foi uma coisa que desenvolvi para poder me expressar daquela maneira com a madeira.

Aquila: É porque você tem outros estilos, que são mais animais, tem o bestiário, que tem uns animais meio fantásticos, mais expressionistas. Quer dizer, o veio da madeira aparece e o fazer aparece. Nessas, o que acho interessante é que o fazer da xilogravura desaparece. Quem já fez xilogravura acrescenta isso, o fato de você transformar uma coisa tão dura numa coisa tão macia.

Roberto: Gosto muito de ouvir opiniões como a sua, porque é difícil você enxergar a si mesmo, ver sua própria expressão. Muito difícil. Dou muita importância a uma opinião de outras pessoas e de outros artistas.

Aquila: Eu sempre gostei muito, sempre acompanhei com muita curiosidade e interesse, desde essa época, quando éramos todos jovens.

Roberto: Tínhamos o cabelo preto, né?

Aquila: E não estávamos virando ursos.

Roberto: E tinha barba preta. Você tem produzido, então, na serra?

Aquila: Continuo produzindo aqui. Tenho ateliê e apartamento no mesmo lugar. Trabalho em casa e gosto muito de ter o movi - mento da casa: café, água gelada, companhia...

Roberto: É importante, mesmo.

Aquila: É, porque o nosso trabalho já é tão isolado. O fazer é isolado. Se a gente não tomar cuidado, acaba virando um esquisitão.

Roberto: Lá no Rio de Janeiro, tenho ateliê em casa. Sempre tive, mas aqui, em Mauá, é em outro lugar. Até um pouquinho distante. Lá, eu tenho muitos livros, antigos, de assuntos que me interessam. Ou me interessaram mais. De espiritualismo. Tem muito, mas muito livro mesmo, raros, que já não existem mais à venda. Vou para lá e fico imerso naquele mundo, que só em um lugar separado dá para construir. E agora, com a quarentena, não recebo nenhuma visita. Normalmente eu recebo. Tenho ami - gos que são do Rio de Janeiro, têm casa aqui perto, vêm visitar. Mas agora ninguém se visita. Nem eu posso ir à casa deles, nem eles na minha. Então, é isolamento, mesmo. Mas é muito bom.

Aquila: O Parque Ipiranga, em Petrópolis, moro bem no Centro, que já é, como a própria arquitetura do Centro de Petrópolis, muito nostálgica e tem uma coisa meio neoclássica, junto com prédios modernos. O Parque Ipiranga é extraordinariamente cenográfico. É uma fantasia. Eu digo que, se você descrever o Parque Ipiranga, ele não poderia dar certo. Só que deu. Roberto: São casas antigas?

Aquila: Dos anos 1940. Mas você tem essa arquitetura um pouco alemã e, ao mesmo tempo, colunas dóricas, balcões coloniais californianos. Então, todos os clichês nostálgicos estão aqui. E é muito agradável. Mas isso te isola um pouco do mundo presente. Já põe você em uma outra atmosfera, ainda mais ficando aqui o tempo todo, sem sair, fica uma coisa anacrônica, no sentido de não saber quando é que você está no tempo.

Roberto: Mas é bom.

Aquila: É bom, muito gostoso. Toda a situação que estou vi - vendo, tirando a preocupação sanitária e política, é muito agradável. Estou bem, estou muito bem. E você, Lauro? Conta aí.

Lauro: Eu estou no Rio, no Leblon, e arrumei uma espécie de disciplina: acordo, faço ginástica, vem uma pessoa, é o meu contato com o mundo exterior, depois tomo banho, medito e escrevo. Aí interrompo, e à tarde faço as atividades da Casa Roberto Marinho. Sempre foi um desejo muito grande ter conversas como estamos tendo. Ter um registro dos artistas, do processo criativo, os depoimentos da carreira. Porém, sempre era tanta coisa concreta para dar conta, que isso ficava só no plano. Agora tem uma coisa adorável da tecnologia, vocês veem: Mauá, Parque Ipiranga e o Leblon podem conversar. É só sentar em frente a um computador com uma câmera, às vezes até um telefone, e conversar. Isso tem sido uma delícia e é, de certo modo, um paradoxo, porque esse isolamento, por outro lado, me deu uma possibilidade de conexão muito grande. Tempo para fazer isso, a que se somou vontade, e a coisa foi, aos poucos, crescendo. Estamos também comemorando os dois anos da Casa. Vocês, aliás, participaram da primeira exposição, que era sobre o tema casa. É uma delícia escutar vocês falando sobre o modo de trabalhar, o processo, o que o mundo importa nisso. Tem sido, nesse sentido, muito prazeroso. Saiu uma matéria até, no Globo, sobre esse nosso esforço virtual, e foi muito simpático que recebi uma mensagem do Vergara falando: “Que bom, que ótimo, conte comigo”. Já marquei, claro, uma conversa com ele, sobre esse processo. Ele, aliás, falou uma coisa muito interessante: que está usando essa suspensão do tempo para criar mais tempo. Para desenvolver trabalhos em torno do tempo e ter mais tempo mesmo, físico.

Roberto: Exato. É interessante. Eu também nunca tinha participado de uma conversa como a nossa, virtual. E é como falei com você: há algum tempo era ficção científica.

Lauro: Completa. Sorte termos pessoas que nos ajudam um pouquinho. Estão perto. Mas é mágica. É quase tão mágico como arte.

Aquila: Sou um pouco treinado, porque temos um cineclube aqui em Petrópolis, funcionava todo fim de semana e passou a funcionar pela internet. Então, tenho tido, três vezes por se - mana, conversas pela internet. O meio é virtual, mas a conversa é verdadeira. É real. Tem sido muito bom, e você acaba criando uma vontade nesse meio, como se estivesse junto. Quer dizer, não faz muita diferença. É quase como se o computador fosse a mesa de um bar, onde você conversa, e essa conversa se desenrola muito bem. E agora, essas conversas com o Lauro estão sendo ótimas, porque Lauro, além de todo o talento que tem, de ser um bom causeur, conversador, tem coisas assim: você está aqui e aí você está vendo o trabalho da Beth Jobim ali atrás. Os objetos, essa estante já é um encanto, ótimo de ficar olhando. A estante já é uma conversa.

Roberto: Já tem muito assunto na estante.

Aquila: Ficou ótimo com a Beth Jobim aí. Roberto , você está aí há muito tempo e faz parte do nosso repertório. Eu me lembro das primeiras vezes que vi seu trabalho, acho que foi na Petite Galerie, e também uma vez fomos apresentados, você já era um jovem artista reconhecido, naquela Galeria Dezon, no Rio de Janeiro. Quem apresentou foi a Marília Rodrigues até, falecida. Era muito bom uma pessoa da mesma geração que já atuava como artista, no meio, e tinha um trabalho importante. Eu imagino que já até vivesse de arte, nesse período.

Roberto: É. Foi nos anos 1962, 1963.

Aquila: É. Acho que você foi o primeiro da geração. Depois veio Vergara, Gerchman, Antonio Dias, mas, naquele período, era uma espécie de pioneiro, você estava abrindo terreno. Foi muito bom.

Roberto: Pode ser, porque eu tinha um ateliê ali na Rua Farani, que era um quarto num cortiço, frequentado por outros artistas jovens, e muita coisa surgiu nesse tempo, lá. Era um princípio, mesmo.

Aquila: Eu estava em Brasília nessa época. Depois tive bolsa, fui pra Paris. Não participei desse momento do Rio, já não estava mais.

Roberto: É, foi um momento muito efervescente.

Aquila: Muito.

Roberto: Porque o encontro da gente era na Escola de Belas Artes, onde os artistas e os jovens artistas se reuniam, todos, com os alunos da Escola de Belas Artes. Todos mais ou menos da mesma idade. A entrada da Belas Artes era livre, não tinha nenhum problema participar de aulas. Não tinha, nenhum controle disso, e foi muito importante.

Aquila: Nessa época, fui aluno do Goeldi na Escola de Belas Artes. Desse jeito, batendo na porta e falando: “Eu quero ser seu aluno”. Aí ele falou: “Pega uma tábua ali”.

Roberto: Você não era aluno da escola?

Aquila: Não

Roberto: Nem eu. Não era aluno, mas podia entrar.

Aquila: Tinha o Goeldi e o Adir Botelho.

Roberto: Eu frequentei Adir Botelho. Você entrava e participava das aulas, e não tinha nenhum vínculo, mas depois aquilo acabou.

Aquila: Naquela época, havia um eixo que vinha da escola para o Museu de Arte Moderna, né?

Roberto: Isso.

Aquila: Entrava com o Goeldi na escola e com o Carvão no MAM.

Roberto: Foi o tempo do Ivan Serpa, Aluísio Carvão. O Museu de Arte Moderna era pequenininho. Não tinha aquele prédio gigantesco. Eram muito modestas as instalações, mas foi o princípio, a abertura para os jovens artistas, que tinham algo diferente a mostrar. Foi muito importante. Essa época foi uma espécie de boom das artes plásticas, do cinema novo...

Lauro: Da arquitetura.

Roberto: Todos os movimentos culturais explodiram nos anos 1960.

Aquila: Às vezes, tenho a sensação, Roberto , de que nós fomos a primeira geração de jovens. Essa ideia do jovem, que estabelece uma ruptura com a geração anterior.

Roberto: Exatamente.

Aquila Sem briga dos modernos contra os acadêmicos. A ruptura é tão grande, que a geração anterior não é modelo nem para brigar.

Lauro: A geração anterior brigava muito em termos de ideologias formais, concretos, neoconcretos, abstratos, figurativos, informais, e a geração de vocês faz de tudo isso uma possibilidade. Não tem muitos interditos.

Roberto: É verdade. Foi uma época muito efervescente nas artes, todas.

Lauro: E, curiosamente, muito fechada politicamente. Havia uma tensão. Mas a gente tem a sensação de que a cultura, talvez, se desempenhasse melhor, tinha mais oxigênio do que talvez em tempos recentes.

Roberto: Ah, sim. É como falei: foi um boom cultural. Foi o tempo dos hippies, começou a mudar o comportamento, até a alimentação mudou nessa época. Apareceu a comida macrobiótica, mudou tudo.

Lauro: Será que esses tempos dificílimos que nós estamos vivendo... tem algumas coisas assombrosas. O planeta, por exemplo, está numa reabilitação climática, os golfinhos nadam no canal de Veneza, peixinhos no Centro, o ar está melhor. A natureza, de algum modo, está agradecendo essas férias que o ser humano está dando a ela. Penso se, de algum modo, isso não pode mudar algum comportamento em arte. Acho que não vamos voltar para o ponto em que estávamos.

Roberto: Tem que ser uma coisa completamente diferente. Um futuro meio enigmático. Ninguém sabe o que vai ser.

Lauro: Na época de vocês, nessa época a que o Aquila está se referindo que é quase a minha, eu sou talvez dez, quinze anos mais novo, havia um certo otimismo em relação ao futuro. Ao passo que, recentemente, futuro é uma coisa de que quase ninguém mais falava.

Roberto: É isso. As perspectivas são difíceis de imaginar. E na quele tempo tinha essa esperança.

Lauro: Tudo parecia estar ficando melhor, mudando os comportamentos. Fico pensando se esse momento de absoluta distopia que estamos vivendo, que nenhum de nós imaginaria há seis meses, se não pode gerar uma espécie de renovação. Mais uma vez ter que construir um futuro.

Roberto: Forçosamente vai acontecer, mas é difícil enxergar uma luz no fim do túnel. Atualmente, está muito difícil. Não está?

Lauro: Está.

Aquila: Sobre a qualidade da produção que houve durante a ditadura no Brasil, acho que o que manteve a gente produzindo foi o futuro. Quer dizer, nós não estávamos trabalhando só pra aquele presente e nem pra aquelas pessoas que estavam dirigindo o país. E isso nos mantinha inteiros e vivos, apesar daquela burrice institucional. E da falta de criatividade, da brutalidade, da violência. Então, o que nos mantinha em pé era a ideia: “O futuro será melhor”. A gente não tinha ideia, inclusive, que fosse durar tanto. Como a gente não tem ideia de quanto tempo vai durar isso que estamos vivendo hoje... Agora, nesse momento, a gente não sabe, eu não tenho dados, mesmo subjetivos, para equacionar o futuro.

Roberto: É, para vislumbrar o futuro.

Aquila Pra projetar o futuro.

Lauro: Por outro lado, as condições ficaram tão desconfortáveis e ruins que vai ser necessário inventar um futuro.

Roberto: Talvez pelo próprio instinto de sobrevivência das pessoas. Vai ter que ser encontrado um caminho. Não é nem descoberto, mas encontrado, mesmo.

Aquila: Estou vivendo como se estivesse num “AA” existencial. Cada dia é um dia e, ao mesmo tempo, tenho tido a sorte de ter a Vânia, minha mulher, que fica comigo, e a Lilia, que é minha assistente, tão criativa. A galeria de Brasília encomendou um filminho, nós fizemos; tenho dado depoimentos como este e cada dia tem sido um prazer. Hoje, a expectativa desse depoimento foi um grande prazer. Quer dizer, a gente se arrumar, depois preparar o cenário, arranjar essa mesa onde ia ficar o computador, ligar o computador. Estou vivendo dia a dia. A vida passou a ser alguma coisa quadro a quadro, como um desenho animado.

Roberto: Como se não houvesse futuro.

Aquila: A gente poder viver o dia a dia bem já é um grande ganho. E ser criativo nesse dia a dia.

Lauro: Eu me lembro também, isso já faz dez anos, tinha sido curador de duas exposições do Roberto no Centro Cultural da Caixa. Algum tempo depois, o Roberto falou: “Lauro, eu tenho os desenhos, você tem o espaço, vamos fazer uma exposição no Paço Imperial, mas de um jeito muito simples: eu levo os trabalhos e a gente põe, juntos, na parede”. E isso foi maravilhoso, porque, por um lado, é bom toda a tecnologia, a possibilidade de fazer belos catálogos, mas, por outro, às vezes as exposições são tão cheias de detalhes, de custos, produções, que ficaram muito complicadas. Talvez nós estejamos num período de redescobrir a simplicidade. Essa possibilidade de cada um de nós, com um computadorzinho na frente, poder fazer uma conversa que, se feita antes, teria uma produção gigantesca.

Roberto: O artista necessita que outras pessoas vejam seu trabalho. Igual a um ator, que precisa de plateia. O artista plástico precisa de uma exposição. E esse isolamento dificulta, não existe essa possibilidade.

Aquila: E as preocupações são tão sérias. Então, fica meio sem eco. Voltando aos meios contemporâneos, à internet, isso está nos dando possibilidades de nos comunicarmos de outro jeito, de fazer arte de outro jeito. Porque Roberto , Lauro e eu estamos fazendo arte aqui. Quase como atores. Estamos representando uma conversa. E isso é uma coisa que a gente não fazia — quer dizer, não atuava desse jeito.

Roberto: É, está mudando.

Aquila: Então, é um produto de arte feito a três, num momento tão difícil. Três pessoas que lidam com meios e técnicas tão diferentes. E aqui conversando e criando um quarto produto, que é esse vídeo que vai sair daqui. Como foi aquele magnífico vídeo com Beatriz Milhazes — a conversa com Beatriz foi esplêndida!

Lauro: A Beatriz falou que o sobrinho dela, de 19 anos, entrou pra Medicina esse ano; as aulas estão virtuais e o menino não está aguentando mais esse mundo da virtualidade. Um mundo no qual ele foi criado e estava acostumado, mas ela estava lançando a hipótese de que essa restrição talvez faça as pessoas valorizarem o presencial.

Roberto: Isso mesmo.

Lauro: Depois que esse período acabar, já imaginou que festa vai ser nós nos vermos em vernissages, para conversar?

Roberto: Vai ser uma festa, mesmo. Vai estar todo mundo com saudade.

Aquila: Como vai ter menos recursos financeiros, vai ter que ter muita colaboração para montar uma exposição. Quem tem a Kombi para carregar o quadro, quem vai emprestar a luz. Eu me lembro-me de ir pra São Paulo e levar os quadros na cabine do trem. E depois de chegar em São Paulo, o Ivald Granato tinha conseguido uma Kombi, o Aguilar tinha conseguido não sei o quê. Tinha que haver essa colaboração para as coisas ficarem de pé e não tinha essa figura do produtor.

Roberto: Você me fez lembrar da primeira exposição que fiz. Foi em 1962, na Galeria Macunaíma, que ficava ali atrás da Escola de Belas Artes.

Aquila: Que era da escola.

Roberto: Era. Eu cheguei — não conhecia ninguém — com uma pasta de desenho debaixo do braço, mostrei ao pessoal que tomava conta do Macunaíma, aprovaram, me deram a chave da galeria. Abri a galeria, arrumei os desenhos na parede e me sentei lá numa cadeirinha para esperar o público entrar. Não tinha esquema nenhum. Era muito simples. Hoje, como o Lauro falou, é muito dispendioso fazer uma exposição.

Aquila: É verdade. Acho que isso vai mudar, porque não tem jeito, não vai ter grana. Temos que fazer como nós estamos fazendo hoje, aqui. Isso aqui já é fazer uma exposição desses novos tempos.

Roberto: Você tem razão. Tudo vai mudar. Mais objetividade, né?

Aquila: É. E mais afeto.

Roberto: Mais afeto. Mais ajuda, mútua.

Aquila: Mais ajuda, colaboração. Menos individualismo.

Lauro: É isso, gente. Um prazer conversar com vocês, um prazer mesmo.

Aquila: Lauro, obrigado!

Lauro: Que logo, logo possamos nos ver pessoalmente e, como eu falei, a próxima exposição da Casa Roberto Marinho tem uma sala toda dedicada ao Roberto , e também vai comemorar os 80 anos dele. É uma exposição que vai mostrar artistas contemporâneos e vai lembrar os artistas modernos. Fazer sempre essa ponte com o hoje.

Roberto: Claro! Porque uma coisa sai da outra.

Aquila: Quando, no início, falei em rompimento com a outra geração, não estava falando rompimento com a outra geração de artistas. Fui aluno do Carvão, por exemplo. E do Goeldi. Eu estava falando de valores da outra geração. Fomos a primeira geração que não quis ser igual aos pais. Porque a geração anterior de artista esteve muito próxima a nós. Burle Marx, Carvão, Goeldi.

Roberto: Muito. E mostraram muitas coisas.

Lauro: Como você falou, a juventude, em si, se tornou o valor. No século XX.

Aquila: Valor fundado pela nossa geração. Ou atribuído à nossa geração.

Lauro: Contamos com vocês desde o início, porque a Casa Roberto Marinho também, além de mostrar a bela coleção que nosso patrono deixou, pretende ser um espaço afetivo dos artistas contemporâneos, e vocês contribuem muito para isso.

Aquila: Obrigado, Lauro!

Roberto: Obrigado! Muito bom!


Conversa reproduzida no livro catálogo ENQUANTO, exposição na Casa Roberto Marinho, 2020.