Revista "Galeria" - Wilson Coutinho

Aquila: O presente da pintura


Não há dúvida que a carreira de Luiz Aquila, um carioca de 44 anos, chega a um dos seus momentos mais completos. Não só o mercado acolhe as suas pinturas, mas a maioria da crítica soube perceber o muito que este pintor representava para um momento da arte brasileira. A expressão “pai da geração 80”, cunhada pelo escritor Flávio Moreira da Costa, que foi seu aluno de pintura no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro, dá conta do que foi o trabalho de Aquila no nosso meio. Professor de pintura do Parque Lage, na Escola de Artes Visuais do Rio, até 1985, Aquila pode ser considerado uma espécie de mestre de inúmeros pintores que explodiram com a exposição “Como vai você, Geração 80?”.

Mas é preciso assinalar aqui que a designação “mestre” nada tem a ver com alguém que destila sua influência para a obra dos outros. Conversando, mais tarde, com os artistas do Ateliê, principalmente Daniel Senise e Luiz Pizarro, eles me contaram que a influência e a presença de Aquila se davam no plano emocional e amoroso com a pintura. É verdade que a paleta de Pizarro, mesmo pintando nus, tinha muito a ver com a de Aquila, mas a influência não estava totalmente incorporada nisso. Aquila traduzia, na verdade, a inquietação daquele momento, uma inquietação sujeita aos próprios momentos da arte brasileira, que vive numa inquieta mistura de esquecimento e solavancos. Naquele momento, os jovens pintores estavam tentando decidir o que fazer com o linho branco da tela, não no sentido que um imaginário – e este foi o do neo-expressionismo, de maneira um pouco generalizada que estava sendo calcado – mas, de como aprender a fazer a tela vibrar de cores, de como fazer com que a tela vivesse de pintura, com as sua qualidades – e pior – os seus problemas. Um artista como Jorge Guinle Filho poderia não necessitar disto. Toda a sua obra – pintada em pouco tempo de sua vida – era a de um olho educado desde a infância e ele não era um artista que vivera o esquecimento: a sua obra era uma explosão de procedimentos, gestos, maneiras que abrigavam desde Matisse até os artistas pop norte-americanos. Mas, Guinle foi um caso à parte.

A nova geração não tinha experimentado o odor da terebentina e do óleo, de quadro a quadro, de pintura a pintura, de ateliê a ateliê. Eles não tinham um processo complexo que lhes proporcionasse um paradigma de uma boa pintura. Havia - é claro - Iberê Camargo, Volpi e muitos deles viram que um artista como Philip Guston, exposto na Bienal de São Paulo, não era apenas um criador de imagens eloqüentes, fortes, mergulhadas numa banalidade. Guston tinha pintura - e isto era difícil entender como se fazia.

Esta solidão dos jovens pintores, Aquila poderia apaziguá-la mostrando como se poderia enfrentar a tela, trabalhando a cor e amando a pintura. Era uma didática de sedução pelo esforço, mas que seria necessário enfrentar este esforço, com o perigo de se perder nele. A atividade de Aquila como pintor não foi assim, apenas, aquela que aparecia em seus quadros e que eram expostos nas galerias do Rio e de São Paulo ou na Bienal. Ela aparecia como uma guerrilha muda contra o esquecimento da pintura. É verdade que a pintura de Aquila só poderia se confrontar com a realidade do meio de arte, que vive este dilema. Atualmente, ocorre quase o contrário. Artistas que elaboraram, nos anos 70, outras pesquisas – algumas decisivas para o progresso visual das artes brasileiras – voltaram para a pintura. A sua maioria, contudo, luta tenazmente para que a pintura apareça nos seus trabalhos. E ela não aparece.

Nos anos 70, quando era professor da Universidade de Brasília, vi as suas pinturas e achava – erradamente, é claro – que ninguém poderia permanecer muito tempo naquela situação um pouco antiquada, extravagantemente museológica, enquanto, ao redor, pipocavam tantas experiências, vivendo-se a paixão da desconstrução de tudo que se nomeava pintura para toda uma geração, a pintura parecia conciliar com o passado. Não se via mais circular como uma positividade. Mas, Aquila, permanecia impassível, pintando, buscando a positividade perdida. Nos anos 80, a obra de Aquila já era conhecida nas galerias, pelos curadores de bienais e críticos.

Diferente dos pintores geométricos, Aquila não se preocupava com a construção, mas a sua pintura, na época, era exatamente construída, com suas agudas arestas de cubos, suas malhas que se entrelaçavam, parecendo jogar uma estrutura dentro de outra, onde tudo circula sem centro e prestes a explodir. As telas desta época evocavam uma construção interna, mas em rebuliço: algo que ia se partir internamente em inúmeros estilhaços. Creio que havia ainda dois problemas naquela construção interna: ela era dominada ainda por uma tensão e uma contenção, seguras por um colorido que ainda não se expandia. Mas, internamente, sua malhas e arestas exigiam esta explosão: o colorido de Aquila tornou-se mais vivo, com os tons quentes – vermelhos e laranjas e a adesão ao grande formato, acabou por romper o controle de um centro que parecia dar contorno à tensão de sua pintura. E, de fato, houve esta explosão. A pintura de Aquila ganhou uma dimensão completamente nova, uma pintura que sabe desencadear ritmos acelerados e vertiginosos, numa explosão onde os elementos estruturais de sua obra se expandem à maneira de uma galáxia de cores.

Daí, que as suas últimas obras sugerem uma musicalidade aberta, ao mesmo tempo, avançam

para uma serenidade alegre, uma espécie de pacificação visceral. A explosão e expansão daquelas estruturas, agora, abertas pelo colorido intenso, seus motivos entrelaçados ou dissolvidos, produzem uma pintura que, além de suas qualidades pictóricas intrínsecas, apontam para uma conquista pessoal de um pintor, que atinge agora a sua plena maturidade. Aquila - o solitário de Brasília - ofertou para a sua geração - que é a minha - o presente da pintura: o presente como uma oferenda e como tempo.

Texto de Wilson Coutinho publicado na revista "Galeria", edição nº 6, 1987