O Globo - Frederico Morais

Aquila a todo pincel: 14 exposições


Um fato inédito em todo o país: o pintor Luiz Aquila da Rocha Miranda inaugura hoje, no Rio, cinco exposições simultâneas. Mas o ineditismo não pára aí: até 4 de outubro, vai inaugurar mais seis individuais, participar de duas coletivas e vai ser homenageado por seus alunos-pintores, tudo isso somando 14 eventos no Rio, São Paulo e Brasília.

Logo mais, às 18 horas, na Galeria Sérgio Milliet, ele vai expor cerca de 50 desenhos e gravuras (metal e litos) datadas de 1965 a 1982, antes, na “Galerie Espace”, do Consulado da França, na agência Botafogo do Banco Lar Brasileiro, no Restaurante Helsingor, no Leblon, e na oficina de molduras de Sérgio Porto, em Laranjeiras, ele vai expor em cada endereço uma grande tela realizada nos últimos cinco anos. Ainda no Rio, na próxima terça-feira, expõe seis novas pinturas na Galeria Paulo Klabin, no dia 2 de setembro vai expor uma grande tela, medindo 70X210 no Espaço Cultural da Gare na Central do Brasil (é o “comboio da pintura”) e outros trabalhos no CIEP Presidente Tancredo Neves, no Catete. Também em setembro seus alunos e ex-alunos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, vão homenageá-lo na mostra “Ao mestre com pintura”. Entre outros, participarão , Daniel Senise, Luiz Pizarro, João Magalhães, Mollica e Adriano Mangiavacchi.

A programação de São Paulo começa dia 27 deste mês com uma individual na Galeria São Paulo – vai expor 13 telas e dois grandes painéis medindo 240X260 cm – e participação na Bienal de São Paulo, com quatro telas na Sala Especial “Expressionismos” e num evento especial com o compositor de música eletroacústica Rodolfo César, com a coreógrafa Regina Miranda, sua mulher, e Ângelo Loureiro; e presença no Panorama da Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna. O ciclo de exposições termina com uma indivudual na Galeria Capital, em Brasília, com pinturas de 1983.

- Por que tudo isso em tão pouco tempo? Não lhe parece um programa muito pretensioso? - Acho que não. Estou trabalhando com muita satisfação e necessito de espaços para extroverter toda uma energia acumulada. Todos nós temos momentos de introversão e de extroversão. Por outro lado, me sinto, neste momento, bastante apoiado pelos amigos, por meus colegas, artistas, pelas galerias e pela crítica.

- E por que uma exposição com apenas obras gráficas, se você fez uma carreira como pintor? -Bem, eu sempre desenhei muito, inclusive como forma de recuperação de minha energia. Um pouco como o operário que descansa carregando pedra. O desenho para mim, nunca foi estudo ou caminho para a pintura. Geralmente desenho muito de pois de uma fase de pintura.E se não mostrei antes meus desenhos é por falta de organização. Vou mostrar desenhos que não via há 15 anos.

-Você é apontado como o “pai da Geração 80”. Esta “fecundação” teria ocorrido na Escola de Artes Visuais? -De fato, fui chamado a dar aulas na Escola do Parque Lage, cujo diretor, Rubem Breitman, estava interessado em formar uma equipe de pintura. Sugeri os nomes de Charles Watson e John Nicholson. Já estava lá o Cláudio Kuperman. Tínhamos maneiras diferentes de pintar, mas acreditávamos na possibilidade da cor no espaço bidimensional. Nosso projeto era recuperar a vitalidade da pintura. Ou melhor, a estratégia era minha, mas o sentimento era partilhado por meus colegas. Foi um período muito sectário de nossa parte, defender a pintura, fazendo prevalecer os valores plásticos do Modernismo sobre o anedótico e o literário da arte conceitual.

-Por que sectário? -Queríamos retroceder ao pré-Dada, ao período anterior a Duchamp. Foi uma estratégia de sobrevivência, a única possibilidade que tínhamos de sair do isolamento, já que sempre fomos pintores. Durante a última década, pintar era considerado anacronismo.

-E deu certo a estratégia? -Certíssimo. A nova pintura pode não ter nascido ali, mas a Escola de Artes Visuais era o referencial. Nós tínhamos nosso ateliê na própria escola, o que denunciava os processos e os impasses. Recentemente estive viajando, durante três meses, pela Alemanha, França e Inglaterra e, confrontando a nossa pintura com a que se produz nesses países, acho que vamos bem, obrigado. Voltei mais otimista com a arte brasileira, sobretudo pelo engajamento pessoal dos artistas com seu trabalho. Há dez anos as artes plásticas no Brasil eram uma coisa muito reduzida. Hoje temos uma platéia para a pintura, tão importante como a que o cinema teve nos anos 60, e arquitetura nos anos 50.

Luiz Aquila nasceu no Rio, em fevereiro de 1943, filho do arquiteto Alcides da Rocha Miranda, que é também um fino desenhista e pintor. Entre 1951 e 1959, morou com a família, em Santa Teresa, no Condomínio Santa Cecília, aquele do funicular, ao lado da casa de Djanira. Isto permitia que os freqüentadores das duas casas se encontrassem sempre.Discutia-se arte todo o tempo.

Luiz Aquila sempre foi atraído pela tensão entre contrários. Já em seu período de formação, sentia-se dividido entre o universo expressionista de Goeldi e a economia expressiva de Aluísio Carvão, entre este artista neoconcreto, que preconizava a autonomia da cor, e a elegância linear, um tanto aristocrática de Wesley Duke Lee. Passou longos períodos em Brasília, onde estudou e foi professor e, como bolsista, em várias oportunidades, morou em Paris, Londres e Lisboa.

Aquila passa o dia no ateliê (mora numa casa de três andares no Humaitá), onde há sempre uma garrafa térmica, com café, uma moringa, com água gelada, rádio. Lê os jornais do dia no ateliê e, para pintar, precisa armar um ritual – vestir a mesma roupa surrada e suja de tintas de pinturas anteriores, usar o mesmo pincel Tigre, desses bem baratinhos. Diz que o impulso que o leva a pintar é a necessidade de refazer continuadamente o jogo da pintura: - O que ocorre em torno de mim repercute no meu trabalho, mas não sei explicar como. Antes de pintar eu não percebo, depois não me importa explicar. As tensões fazem parte de minha pintura, quero criar quadros mais ou menos contrastantes, lidar com a temperatura da cor – fria ou quente – relacionar cor e valor. Procuro manter sempre meu processo de criação em aberto, o quadro fluente, em andamento. Nunca paro num impasse. Como pinto apenas durante o dia, é como se deixasse o quadro trabalhar à noite, fazer serão. E com muita freqüência, o quadro aparece diferente no outro dia – conclui.

Matéria de Frederico Morais publicada no jornal “O Globo” em 13 de agosto de 1985