• Luiz Aquila

Predominância da paisagem

Nos grandes quadros realizados em Brasília, por volta de 1970, Aquila da Rocha Miranda asperge a tinta sobre uma superfície lisa e de aparência pouco permeável, como se fosse necessário o distanciamento físico entre o pintor e tela para captar a extensa luminosidade do planalto central brasileiro. O pintor trata esses espaços com cores quase sempre frias, com superposição de planos e efeitos de elegante transparência. Seu tema é a paisagem vista e sentida, enriquecida daquela que a memória guarda.

Serão poucos os artistas brasileiros de formação contemporânea com uma obra tão marcada pela presença da natureza como a de Aquila. Quase não se pode falar de predileção pelo tema. É como se a percepção do “locus” se impusesse ao pintor no momento em que, ao descobrir o curso de suas aspirações, desemboca na maturidade artística. Mesmo antes, nos diminutos desenhos, cheios de uma sutil referência arquitetônica e permeados de comentários sobre o repertório estilístico da época, a paisagem está presente.

Entre a etapa brasiliense e a obra mais recente, Aquila muda duas vezes de paisagem. Primeiro, vai à Inglaterra e, de lá, volta ao Brasil, para Petrópolis, onde reside. Aqui, os elementos particulares adquirem presença mais imediata, reclamam a atenção, interferem, se fazem inevitáveis. Há uma relação direta com as coisas, uma espécie de promiscuidade de acidentes e incidentes. Os horizontes se estreitam, o artista se intimiza com o espaço, abandona a técnica da asperção. Seu trabalho é outro; para lidar com essa realidade mais ruidosa, necessita intervir de perto, voltar ao pincel, aproximar-se da tela no recuperado corpo-a-corpo do pintor com a obra.


Vera Pedrosa Texto da exposição de Luiz Aquila no Museu de Arte de São Paulo, São Paulo, 1975.



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