Catálogo da exposição "Luiz Aquila por toda a cidade" - Frederico Morais

Luiz Aquila por toda a cidade


Luiz Aquila sempre foi atraído pela tensão entre contrários. Já em seu período de formação, sentia-se dividido entre o universo expressionista de Goeldi e a economia expressiva de Aluísio Carvão, entre este artista neoconcreto, que preconizava a autonomia da cor, e elegância linear, um tanto aristocrática de Wesley Duke Lee.

Em sua obra, vamos encontrar fases em que um pólo parece prevalecer sobre o outro, o espaço sobre o tempo, o próximo (uma relação visceral com a tela) e sobre o distante (a cor sprayada sobre a tela, camada sobre camada), a cor (rompendo diques, sangrando os bordos da tela) sobre o linear (gregas, espirais, angulações, grafismos vários, a própria assinatura que esplende, vigorosa, no canto da tela), a natureza (impossível morar no Rio e não ser afetado pelas curvas e sinuosidades das montanhas e do próprio viver escorregadio do carioca: isto ocorreu com Burle Marx, Niemeyer, Le Corbusier, Lhote, e ocorre também com Aquila) sobre a cultura (estas formas amebianas, de palhetas-corações que marcam o Modernismo brasileiro dos anos 40/50, no qual Aquila treinou seu olho), o orgânico sobre o inorgânico, o gesto sobre a construção.

A rigor, porém, nenhum destes pólos existe em estado de pureza, pois Aquila rompe continuamente os limites e fronteiras entre um campo e outro e esta relação tensionante ocorre no interior de cada tela. Às vezes, dramaticamente, outras vezes, em tom lírico. Se Lélia Coelho Frota chegou a falar em aerofotogrametria da paisagem, definindo a natureza como motivo central e coerente de sua obra, é ela mesma que vai alertar para o fato de que são o quadrado e o retângulo que se naturalizam ao invés de geometrizarem os elementos naturais.

De fato, algumas de suas pinturas podem sugerir sobrevôos paisagísticos, assim como a estrutura gráfica que cresce entre os verdes que assomam sua palheta, podem indicar a memória inconsciente da natureza. Porém, a paisagem de que trata Aquila é a própria pintura, enquanto fenômeno específico, com suas leis internas, enquanto fato plástico. Aquila não descreve nem comenta uma realidade exterior ao quadro.

Seu assunto é a cor, a composição, este jogo de tensões. Não se trata mais de extroverter a emoção do gesto, mas pintar o próprio gesto, objetivamente. Aquila não distingue a ideação da execução, não faz pintura de tese, o quadro vai nascendo ali, no corpo a corpo da matéria com que constrói a pintura, num diálogo ativo e inteligente, um procurando se impor ao outro, tensamente.

O objetivo é aguçar ao máximo as relações internas da pintura, atuar no centro e na periferia, no plano, como matéria, e em profundidade, como espaço, sístole e diástole da cor e da forma. E assim como ele é capaz de virar o quadro pelo avesso, abrindo uma clareira na composição, como uma mancha estrategicamente situada, é capaz de pôr o máximo de ternura na cor, valorizando os tons, compor uma canção tonal. Sua pintura aparece, hoje, menos gestual (a cor não flui mais como um rio, é mais eco sobre a forma) é mais fragmentada, fruto de sua decisão de movimentar ao máximo a estrutura. Precursor do novo Informalismo brasileiro, apontado como o "pai da geração 80", Luiz Aquila não dilui sua pintura em modismos internacionais ou cacoetes geracionais, nem é matriz para ninguém. O que ele ensinou não foi um conjunto de macetes, ele defendeu uma atitude diante da pintura. O que ele defendeu com unhas e dentes, ou melhor, com tintas e pincéis, foram os próprios valores plásticos, aquilo que é permanente na pintura, não importa sua data ou localização geográfica. Aquila é, hoje, herói de sua própria pintura.


Frederico Morais Texto publicado no catálogo da exposição "Luiz Aquila por toda a cidade", Rio, 1985.