Luiz Aquila e suas aventuras na arte


Em Julho de 2009, Luiz Aquila foi convidado a participar do projeto Depoimentos para Posteridade, do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. Ele foi entrevistado pela escritora Ana Maria Machado, pelo artista plástico e professor Avatar Moraes, pela diretora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage Claudia Saldanha, e pelo crítico de orle Frederico Morais. Estes são alguns trechos do depoimento.

Avatar Moraes: A maioria dos seus quadros me causa a impressão de que você inicia o quadro o violentando-o com uma mancha, e que a partir daí se desenvolve. Em seguida coloca algum outro elemento para complementar ou para brigar com aquela mancha. É essa a questão?

Luiz Aquila: É. Aí começa a política, começa a negociação: pinta lá, pinta cá; uma parte começa com reivindicações, você cumpre aqui, deixa pra lá, começa a organização mundo, daquele continente que é o seu quadro.

Avatar Moraes: Mas essa mancha é primordial?

Luiz Aquila: Sim. Na mosca!

Avatar Moraes: Mas essa mancha sai assim? Ou você pensa: "Vou fazer uma mancha de tal jeito"?

Luiz Aquila: Às vezes, ela sai literalmente um jato. Um gesto que é um jato. Outras vezes, é uma mancha que derrama. Outras vezes, eu quero começar com uma mancha transparente. Mas há uma mancha.

Avatar Moraes: Em última análise, você começa o seu quadro com um ato de violência?

Luiz Aquila: Às vezes, a mancha não é violenta. Mas eu acho que toda pintura tem esse lado, que é terrível e desrespeitoso com uma coisa linda e perfeita que é o retângulo branco da tela.

Avatar Moraes: Essa mancha primordial é quase sempre vermelha. Tem algum propósito nisso ou é espontâneo?

Luiz Aquila: É um ato de intromissão, um ato de interferência. Em determinados momentos, é mesmo violento pois é uma pancada que eu dou na tela. Em outros momentos, não! A aguada derrama e cria uma pele sobre o quadro, e essa própria ele começa a ter manchas que sugerem outras formas. Então, na verdade, é um recurso. Eu provoco imprevistos para depois trabalhar a partir dos acidentes. Em geral vermelho, até porque vermelho é uma cor muito forte, mas não sei por quê. Picasso tem uma resposta ótima - eu sou de uma geração que ainda cita Picasso, os jovens citam Duchamp. Perguntaram ao Picasso: Por quê você pôs esse verde aí? Picasso respondeu: u Io In amarelo, mas decidi pelo verde. Então, há coisas que não têm muita explicação.

Ana Maria Machado: Isso é de toda criação: um desafio ao qual você tenta responder como enfrentamento que vem com uma energia expansiva muito forte, e tem um momento em que você percebe que está controlando aquela energia e está na hora de parar, antes que você destrua o desafio. Porque se você destruir o desafio, não faz mais nada.

Luiz Aquila: Acaba a aventura.

Avatar Moraes: Este aspecto da aventura é importantíssimo! Se você sabe o que vai acontecer, perde.

Luiz Aquila: Por isso é importante mudar, ter pretextos e razões para mudar - como foi meu caso com a exposição no museu Chácara do Céu (o nome da casa foi um estímulo para o meu trabalho e a partir dele criei a série dos Desenhos Celestiais) -, ou mudar de atividade, fazer gravuras, dar aula, que são esforços recuperadores. Servem também para os operários que, no intervalo do almoço, jogam bola porque, se pararem, esfria tudo e não conseguem subir para o andaime novamente.

Claudia Saldanha: Existiu em algum momento a vontade de fazer arquitetura, você chegou a tentar arquitetura?

Luiz Aquila: Não, aí era mais complicado. Eu sempre gostei muito de arquitetura. Eu sou público de arquitetura. Eu olho, leio textos. Mas plantas, maquetes, e desenhos de projetos nunca me interessaram. Eu gosto de prédio pronto. Talvez eu seja um ser mais simples. Tenho que ir direto na materialidade.

Frederico Morais: Perguntaram para o Guignard quando ele sabe que terminou o quadro. O quadro faz "plim"- ele disse. Você sabe quando termina o quadro?

Luiz Aquila: Há quadros que eu demoro mais para acabar, mas chego ao "plim". Há quadros que se esclarecem. Há quadros que são assassinos, eles querem matar. São perigosíssimos! Você luta e ele se esconde. Eu viro esse quadro de costas, e deixo ele ao largo. E há quadros que eu demorei 20 anos para terminar. Ou seja, 20 anos depois eu retomei, e só depois desse intervalo consegui entender o que estava se passando. Entender visualmente, e conseguir dar um fecho à pintura, àquela estação da minha obra. Às vezes, eu penso muito nisso: como os quadros são estações da obra, um momento do processo. Você tem um momento ali naquele quadro e depois você retoma seu caminho. O que não quer dizer que o quadro esteja completamente resolvido, porque tem alguns que você não entende. Às vezes, seu processo consciente é muito duro e lento, não consegue compreender o que você criou em determinado momento.

Avatar Moraes: Gostaria que você falasse como é essa história de um quadro que é outro. O quadro anterior cria o novo? Há coisas que você não resolveu no quadro anterior e quer resolver no novo?

Luiz Aquila: Eu acho que, assim... pintor pinta! Eu estou sempre pintando, ou mesmo quando não estou pintando na prática, subjacente a tudo, eu estou pintando. Termino um quadro e começo outro. Isto não quer dizer que aquele não tenha sido resolvido porque eu não tenho um programa ou pressuposto. O que eu quero é pintar, manter o processo em aberto.

Avatar Moraes: Então você tem que criar problemas.

Luiz Aquila: Tenho.

Avatar Moraes: Esta é a definição do artista. Você cria os problemas. É a diferença entre o artista e o designer. O designer recebe problemas exteriores.

Luiz Aquila: E cria soluções!

Avatar Moraes: O artista cria os problemas. Num quadro, você resolveu ou não os problemas que criou inicialmente, ou surge uma outra ordem de problema a cada quadro?

Luiz Aquila: Às vezes sim, outras vezes não. Às vezes, um quadro é rebatimento ou continuação do outro. Outras vezes, há uma interrupção e eu começo uma nova história. De vez em quando, eu preciso de um outro estímulo. É continuar a viver, continuar a pintar. Na verdade, pintar é muito parecido com a vida no sentido de que você vai encontrando novas razões para viver. Não é dizer que já resolveu a sua vida até aquele momento, mas você cria uma outra etapa, vai viajar, cria um novo trabalho, uma nova relação de afeto.

Frederico Morais: E os seus cabelos brancos, em relação à sua pintura? Como você se sente hoje? Mudou sua pintura, mudou o ritmo?

Luiz Aquila: Me sinto muito melhor hoje, fisicamente, do que me sentia com 30 anos. Em relação à minha pintura, me sinto melhor também porque ela é muito menos ameaçadora. Estou mais confiante para transformá-la e mudá-la e mais seguro, não no sentido que a pintura seja confortável, mas a opção por ela não é mais uma coisa que eu questione moralmente o tempo todo. É aceitar uma atividade tão prazerosa, num mundo em que as pessoas sofrem tanto com profissões tão tediosas. Poder acordar e fazer uma coisa que te dá muito prazer é complicado. Agora não, estou numa boa. Vou para o atelier pintar de manhã, satisfeito. Não me passa mais essa ideia de culpa.

Frederico Morais: Você foi mais de uma vez apontado como o pai da geração 80. Você chegou realmente a produzir essa geração toda? Gostaria que você falasse sobre isso porque há sempre muita discussão.

Luiz Aquila: O Romário foi preso porque não pagou pensão, então essa história é perigosa (risos). Eu não fui pai de nenhum deles. Sou pai do André, da Nina e da Júlia, que está aqui presente, e também tenho alguns queridos filhos-enteados. É o seguinte: Por ocasião de minha exposição na (galeria) Luisa Strina, em São Paulo, o Flávio Moreira da Costa escreveu um artigo na Folha com o título: -Pai da geração 80-. E aí ficou essa história. Eu não sou pai, mas acho que tive uma influência naquele momento. Por exemplo, quando se consultam currículos de artistas cariocas importantes que participaram da mostra, "Como vai você, geração 80?" de 1984, com muita frequência, meu nome é citado como professor. Talvez naquele momento eu fosse mais desinibido, mais aguerrido no sentido político e tivesse mais vontade de fazer "agitprop", como se dizia antigamente. Eu militava muito pelo espaço para a expressão individual e pelo trabalho que lida diretamente com a matéria, com a visualidade e com a emoção.

Frederico Morais: Você é político no sentido de que defendia uma luta ostensiva e expressiva pela pintura.

Luiz Aquila: Claro! Pela pintura. O Frederico organizou no MAM, em 1982, a exposição "Entre a mancha e a figura” com elenco formado por artistas experientes, onde já estava nítido o novo interesse pela arte visualmente expressiva. A pintura está sempre presente. Desde os tempos de nossos antepassados habitantes das cavernas, o ser humano pinta, dá vida e significado à superfície.