• Luiz Aquila

Luiz Aquila - 1988

Em plenos anos 60, estes desenhos a nanquim, guache e aquarela de Luiz Aquila não só mantém a espontaneidade do sopro do pincel sobre o papel, em fios quase à deriva do pensamento, À Moda do Oriente, como está claramente explicitado no título de um deles, como também enunciam, com igual verdade, um vocabulário neofigurativo que se insere nas linhas de contestação ao regime militar que marcou as manifestações de vanguarda naquela década.

Assim é que, pela primeira e única vez, no seu percurso de artista voltado mais para o mergulho nas forças naturais que conformam o visível do que para articulação das formas físicas finais que resultam da vibração do mundo subatômico, Luiz Aquila recorreu à figura, sem no entanto jamais trair o dado de que conhecimento é transformação.

Dessa maneira, em um tempo onde a fratura da ordem social nunca ameaçou tanto a integridade do indivíduo, aflora à superfície destes desenhos toda uma disjecta membra de cabeças, troncos, bocas dilaceradas, como se pode ver em Natal Brabo, Acabou o General, Televisão Antiga. Predominam nesta série de desolados testemunhos da época valores tonais cinzas, negros, ocres e roxos, por sua vez também inéditos – assim como a figuração – no trabalho do artista, que é com razão considerado hoje um dos maiores e mais fortes coloristas da arte brasileira contemporânea.

A própria paisagem – sempre recriada por ele a partir da fusão naquela “central de energia do espaço-tempo” de que nos fala Klee, - ao invés de transfeita na emulsão a uma vez explosiva e contida da sua cor/forma de hoje, é aqui indicada através de grades de quadrados, pequenos mapas onde a geografia da evasão só pode ser tentada através de um solitário gesto livre, que oblitera a compartimentação do geometrismo aprisionador.

Mancha de nuvem corre sobre o papel enlutado da terra, é este o tempo sombrio que Luiz Aquila soube acusar desenhando, com liberdade, competência e coragem.

Texto crítico de Lélia Coelho Frota do catálogo da exposição “Doação Luiz Aquila” na Galeria de Arte Centro Empresarial Rio em outubro de 1988


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